Muitos não compreendem a dificuldade de conseguir a quantidade de Wild Discus permitida pela lei brasileira num espaço de tempo tão curto . É preciso que os rios da Amazónia desçam e voltem a subir. Como já referimos, temos uma quota de 4000 peixes selvagens por lei brasileira. Os rios da Amazónia normalmente começam a descer em maio, junho e só em setembro é possível recolher discus selvagens. No passado, a água dos rios só começava a subir em janeiro .
Claro que tudo isto depende da Mãe Natureza. Veja-se, por exemplo, a época de 2018/2019. Os rios começaram a descer em maio, muito lentamente, mas até outubro não desceram o suficiente para permitir qualquer recolha. No final de outubro começámos finalmente a selecionar os primeiros discus selvagens. A água baixou de forma extraordinariamente rápida e, no final de novembro, começou a subir.
Na verdade, tivemos cerca de 45 dias para recolher e selecionar 4000 discus selvagens em diferentes comunidades. Todas muito distantes umas das outras, em percursos feitos quase só de barco.
O stress é sempre grande, mas na época de 2018/2019 foi ainda maior para juntar todo o stock para um ano. Muitas pessoas não fazem ideia de como tudo funciona, porque, quando o rio sobe, os discus selvagens entram na floresta.
Além de estarem dispersos, é totalmente impossível encontrá-los e capturá-los. Mais do que isso, começam a reproduzir-se assim que os rios começam a subir. As chuvas também contribuem para este fator, como é lógico, pois alteram a química da água. Nesta altura começamos a ver peixes um pouco mais magros e mais escuros, típicos de quando começam a reproduzir-se.
Foi uma época atípica. Nos últimos anos, é quase impossível prever quando os rios da Amazónia sobem e descem. Provavelmente devido às alterações climáticas. A realidade, porém, é que esta é a fase de um trabalho imenso e de uma organização levada ao extremo.
Corre-se de um lado para o outro e muitas vezes acontecem situações imponderáveis. Costumo dizer que são os " Imprevistos Amazónicos". Dou vários exemplos !
Com muitas comunidades não há contacto por internet nem por telefone, por isso nunca sabemos se os pescadores já estão a pescar . Por vezes acontece juntar um número significativo de discus selvagens numa caixa para serem selecionados por nós e, durante a noite, um boto (golfinho) ou um jacaré destrói por completo a caixa de madeira na água, onde estavam reunidos 200 a 300 discus selvagens.
Outras vezes uma tempestade virou a caixa. Noutras, os pescadores simplesmente não tinham vontade de trabalhar e pescar. Assim, muitas viagens são tempo perdido, custos de gasóleo do barco, etc.
" Imprevistos Amazónicos" ao longo destes 12 anos há inúmeras histórias que talvez um dia, num livro de memórias, contem algumas delas. Fazem parte da vida na Amazónia.
Muitos pensam que os discus selvagens estão sempre disponíveis para serem capturados, o que é um erro. As empresas precisam de estar bem organizadas para os reunir. Muito mais difícil para empresas como a Santarem Discus Company que, nos 10 anos desde que foi constituída , prefere escolhê-los um a um. Se esperássemos que os pescadores fizessem a qualidade, nunca seria aquela pela qual , somos reconhecidos e os custos seriam muito inferiores.
A questão é sempre a mesma: em 3 meses é necessária uma logística enorme, que melhorámos nos últimos 10 anos. O grande problema da Amazónia é a ausência de logística.
Se perdermos muito tempo dos habituais 3 meses, podemos perder o tempo de captura e recolha. Todo o tempo é curto e a equipa trabalha de forma mais profissional. Recolher 4000 discus selvagens, depois selecioná-los, embalá-los e enviá-los para a empresa é um trabalho árduo que exige de toda a equipa da Santarem Discus o máximo foco.
Vitor Hugo Quaresma

